9 de março de 2013

A ACADEMIA DE CINEMA QUE NÃO GOSTA DE CINEMA


      Michael Haneke é um dos cineastas que mais me impressionam, principalmente pelo modo de construir uma linguagem que não faz concessões ao mercado. Ele não quer entreter, mas fazer pensar. Seu último filme, “Amor” – o qual nem considero o melhor que ele tenha feito – foi indicado para concorrer ao Oscar 2013. Pela película, Haneke foi listado como diretor; a atriz francesa, Emmanuelle Riva, como atriz; e, de quebra, sua escritura como roteiro original. 
      Todas estas indicações são mais do que indícios de que seriam, fora a óbvia de “filme estrangeiro”, apenas medalhas de honra ao mérito. A indústria norte-americana não costuma “perder” sob o ponto de vista econômico e ideológico. A indicação de bons filmes, principalmente estrangeiros, sempre foi apenas meritória na história do Oscar, nunca para valer. Sendo assim, estava escrito que Haneke não ganharia outro troféu do que o de “estrangeiro”, o de “outro”.
      O Oscar não foi inventado para premiar cinematografias insurgentes, marginais, “estrangeiras”, de poucos recursos, inventivas e de linguagem distinta da fórmula padrão que consolidou a fábrica de criar emoções e de exportar a política de expansão do capitalismo. Em resumo, não é um prêmio para o cinema, mas para o capital.
      Eu sei da obviedade disto tudo e tenho certeza de que não estou aqui escrevendo nenhuma novidade. Meu espanto se dá pela falta de reação e da complacência do brasileiro em não refletir sobre isto, e não pelo fato de a academia (um termo apropriado, pois as academias têm certa ojeriza à novidade) se recusar a premiar o melhor filme. Aliás, é cansativo, pela obviedade quase explícita, explicar a um espectador médio que um  filme não é apenas entretenimento (por conta da história e não pela linguagem) mas composto de  muito mais significados do que ele imagina. Para pensar um filme sob o ponto de vista crítico é preciso esquecer as histórias e se ater aos aspectos de condução, linguagem, inventividade e ritmo, e o de fazer pensar mais do que entreter, assim como fez Haneke, com “Amor”.
      Não estou espantado, portanto, pelo fato de a tal academia ter premiado a atuação de uma jovem atriz, Jennifer Lawrence, que fez nada mais do que o normal, e não a interpretação antológica de Emanuelle Riva. Do mesmo modo, nem por ela ter acreditado que Ang Lee, com peripécias tecnológicas, possa ter conduzido a câmara e os atores magistralmente como fez Haneke. Muito menos de que a academia creia que o filme de Ang Lee seja mesmo mais importante, sob o ponto de vista cinematográfico, do que o do austríaco. Me espanta o quanto os brasileiros se envolvem com um evento destes, pelos comentários, pelas torcidas por este ou aquele filmeco (como “O lado bom da vida”), pela transmissão quase ufanista, pela torcida por algo que não nos pertence, ou pela importância descabida que a própria mídia dá ao evento, como se fosse a coisa mais importante da cultura mundial. E não é. A mídia apenas segue a onda por conta da grana, nada mais. Nós, colonizados pela cultura norte-americana, nos encarregamos de auxiliar sua indústria mais poderosa, que faz, sim, bons filmes (e estes raramente concorrem ao Oscar), mas que, na média, apenas repete velhas fórmulas.
      Quando a primeira dama dos Estados Unidos, ao vivo para todos os cantos colonizados do mundo, anunciou o prêmio de melhor filme, e, antes disso, fez um discurso elogiando o quanto o cinema faz bem ao país divulgando a “verdade”, estava na cara que o ganhador seria o filme que deu um empurrãozinho ideológico à sua política externa. Como cinematografia, “Argo”, o ganhador, não vale um dólar furado, pois fabrica clichê sobre clichê, usa a câmara, os recursos sonoros e os truques apenas para heroicizar a política e a ideologia de seu país. Como muito bem escreveu o crítico de cinema José Geraldo Couto, comparando “Argo” com seu dublê “A hora mais escura”: “Três décadas separam os dois eventos, mas nos dois filmes persiste um traço comum: a total falta de interesse dos realizadores em conhecer o “outro”, em tentar, ao menos por um instante, se aproximar de seu ponto de vista, buscar compreender suas motivações. O que há é um “nós” e um “eles”, como nos velhos filmes de índios, ou de alienígenas.”

ALÉM DO MAIS...
      As evidências do quanto a política externa norte-americana se vale do cinema – e não são de hoje – estão cada vez mais escancaradas. As grandes distribuidoras, cientes do quanto o gosto médio dos espectadores de países como o Brasil está mais do que moldado às narrativas da fábrica de emoções, empurram de goela baixo, com ameaças de não distribuir mais estes filmes aos exibidores, o que há de pior da cultura e de sua ideologia.
      Citei aqui outro dia o cinema feito em Recife como sinal de novidade, por conta do reconhecimento por parte do governo pernambucano de que a considerada sétima arte é uma indústria fundamental para o desenvolvimento, porque gera divisas, empregos e exporta cultura. Os cineastas brasileiros têm todo direito, sim, de reclamar da apatia do governo brasileiro e o de outros estados (como Santa Catarina) em não reconhecer essa obviedade, e por não tratar o cinema com seriedade, (os norte-americanos o tratam a seu modo) criando, por exemplo, salas exclusivas para a cinematografia brasileira e repensando a desproporção da distribuição de filmes norte-americanos em detrimento a filmes de outros países. Nas tevês, chega a 90%, por exemplo.
      Se um produtor norte-americano investe em um único filme o equivalente a arrecadação de um ano inteiro de cidades como Criciúma, por exemplo, é uma prova quase redundante de que eles dão uma importância ao cinema à qual nós não. E não pensem os senhores que não têm ajuda do governo. Quer ajuda maior do que a aparição de Michelle Obama na decadente e extemporânea festa do Oscar?
      Se já sabemos há tempos que o cinema é uma indústria tão poderosa, por que somos apenas espectadores passivos e não agentes transformadores? Basta um pouco de inteligência e dinheiro, que, sabemos, num país que se dá ao luxo de pagar salários de 60 mil reais para um único parlamentar, parece não faltar.

Publicado no Diário Catarinense, 9 de março de 2013

Nenhum comentário: